Se a conexão foi perdida por atraso do primeiro voo vendido no mesmo bilhete, a companhia responde pelo atraso salvo se provar que tomou as medidas razoáveis (Montreal, art. 19). O teto da Convenção vale para o dano material; o dano moral segue o CDC (Temas 210 e 1.240 do STF). Turmas do TJES e do TJCE condenaram companhias em casos de chegada 24 horas depois; quando a companhia deu hotel, transporte, alimentação e reacomodação rápida, o pedido foi negado.
Mesmo bilhete ou bilhetes separados
A primeira pergunta é se os voos estavam no mesmo bilhete (mesma reserva) ou foram comprados separadamente. No mesmo bilhete, a conexão faz parte do contrato, e a companhia que vendeu o itinerário responde pela chegada ao destino final. Com bilhetes separados, cada companhia responde pelo seu trecho, e a perda da conexão tende a ser vista como risco de quem montou a viagem.
Em transporte internacional, o atraso é regido pelo art. 19 da Convenção de Montreal:
Artigo 19 - Atraso
O transportador é responsável pelo dano ocasionado por atrasos no transporte aéreo de passageiros, bagagem ou carga. Não obstante, o transportador não será responsável pelo dano ocasionado por atraso se prova que ele e seus prepostos adotaram todas as medidas que eram razoavelmente necessárias para evitar o dano ou que lhes foi impossível, a um e a outros, adotar tais medidas.Convenção de Montreal (Decreto nº 5.910/2006), art. 19. Texto oficial: www.planalto.gov.br
O limite para o dano material causado pelo atraso de pessoas é o do art. 22, número 1:
1. Em caso de dano causado por atraso no transporte de pessoas, como se especifica no Artigo 19, a responsabilidade do transportador se limita a 4.150 Direitos Especiais de Saque por passageiro.Convenção de Montreal (Decreto nº 5.910/2006), art. 22, número 1. Texto oficial: www.planalto.gov.br
Esse limite não vale quando há dano causado com intenção ou de forma temerária, conforme o número 5 do mesmo artigo:
5. As disposições dos números 1 e 2 deste Artigo não se aplicarão se for provado que o dano é resultado de uma ação ou omissão do transportador ou de seus prepostos, com intenção de causar dano, ou de forma temerária e sabendo que provavelmente causaria dano, sempre que, no caso de uma ação ou omissão de um preposto, se prove também que este atuava no exercício de suas funções.Convenção de Montreal (Decreto nº 5.910/2006), art. 22, número 5. Texto oficial: www.planalto.gov.br
Em voo internacional, o Supremo Tribunal Federal separou dois regimes. No Tema 210 da Repercussão Geral (RE 636.331/RJ e ARE 766.618/SP, julgados em 25/05/2017), fixou que as convenções internacionais que limitam a responsabilidade das companhias, especialmente Varsóvia e Montreal, prevalecem sobre o Código de Defesa do Consumidor. Na prática, os tribunais aplicam esse limite ao dano material. No Tema 1.240 (RE 1.394.401/SP, julgado em 15/12/2022), fixou a tese:
Não se aplicam as Convenções de Varsóvia e Montreal às hipóteses de danos extrapatrimoniais decorrentes de contrato de transporte aéreo internacional.STF, Tema 1.240 da Repercussão Geral, RE 1.394.401/SP (tese)
Ou seja: o prejuízo em dinheiro segue o teto de Montreal; o dano moral não fica limitado pela convenção e segue o CDC. A 2ª Turma Recursal do TJCE transcreveu essa tese, com o número RE 1.394.401, no Recurso Inominado Cível nº 3000342-49.2026.8.06.6001 (julgado em 29/07/2026).
Decisões com conexão perdida em voo internacional
INAPLICABILIDADE DO TEMA 210 DO STF PARA DANOS MORAIS. INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
Favorável ao passageiro
ATRASO DE VOO QUE ACARRETOU A PERDA DE CONEXÃO E ATRASO NA CHEGADA AO DESTINO DE 24 (VINTE E QUATRO) HORAS DO HORÁRIO INICIALMENTE PREVISTO. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO CONFIGURADA. INCIDÊNCIA, NO CASO, DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
Favorável ao passageiro em parte
REACOMODAÇÃO SOMENTE NO DIA SEGUINTE, PERDA DA CONEXÃO DOMÉSTICA PARA FORTALEZA E ATRASO APROXIMADO DE 24 (VINTE E QUATRO) HORAS NA CHEGADA AO DESTINO FINAL. PERNOITE FORÇADO EM PAÍS ESTRANGEIRO.
Favorável ao passageiro
ATRASO DE VOO. PERDA DE CONEXÃO. ASSISTÊNCIA MATERIAL PRESTADA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE FORTUITO EXTERNO. DANO MORAL NÃO PRESUMIDO. DANOS MATERIAIS NÃO COMPROVADOS.
Desfavorável ao passageiro neste ponto
O padrão que se repete: longa espera, pernoite sem assistência e chegada muito tarde pesam a favor do passageiro; assistência completa e reacomodação rápida pesam contra. A página geral sobre conexão perdida reúne mais decisões.
Passo a passo prático
- Guarde o bilhete com todos os trechos (para mostrar que estavam na mesma reserva).
- Registre o horário real de cada voo e o horário de chegada ao destino final.
- Peça hotel, alimentação e transporte por escrito e guarde as notas do que pagar.
- Se a reacomodação oferecida não servir, registre a recusa e o motivo.
- Fique atento ao prazo de dois anos de Montreal (art. 35) e veja onde processar.
Perguntas frequentes
Perdi a conexão por atraso do primeiro voo. A companhia responde?
Se os voos estavam no mesmo bilhete, a companhia responde pelo atraso, salvo se provar que adotou as medidas razoáveis para evitar o dano (Montreal, art. 19).
O limite de Montreal reduz o dano moral?
Não. Pelo Tema 1.240 do STF (RE 1.394.401), as Convenções de Varsóvia e Montreal não se aplicam aos danos extrapatrimoniais. O limite vale para o dano material.
Comprei os voos separadamente. Tenho direito?
Com bilhetes separados, cada companhia responde pelo seu trecho. A perda da conexão por atraso de outro bilhete costuma ser vista como risco de quem montou a viagem; a análise depende do caso.
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